5.8.17

canto ao vento

modulada no vento, chega-me a sua voz acetinada. dançando no vento, tecem-lhe as folhas um vestido floral. entrelaçada no vento, viaja a luz do seu olhar rebrilhante. e eu, vou até ela no vento, levado como se fosse areia, até que de mim, tudo o que resta, cabe num redemoinho.

18.5.17

canto do apaixonado despojado

para oferecer à minha amada levo apenas ternura. moldada com a exata forma de mim.

17.5.17

canto do viajante

nos anos primeiros  da minha vida, viajei por desertos, atravessei oceanos, conheci o gelo polar, o fogo equatorial. os anos  restantes da minha vida dedicarei a conhecer a minha amada. viva eu mais anos do que os que já deixei para trás, porque tanto mais há por descobrir.

canto dos palácios do céu e da terra

a terra é um palácio que olha para cima, o céu é um palácio que olha para baixo. passarei por cima de todas as águas em busca da mulher sete vezes tão bela. quando a borboleta rubra a ela se chegar, saberei que estou perante aquela que tem a chave do palácio do meu coração.

14.5.17

canto à lua breve

a lua estendeu sobre a terra uma toalha de prata. nela ceei com a minha amada e o nosso beijo brilhou na luz argêntea como um morango de rubis.

28.4.17

mil cantos IV

vem, meu amor, partamos para os campos. acolher-nos-ão nas aldeias. alvoreceremos nos vinhedos. veremos se florescem os pâmpanos, se as romãzeiras estão em flor. rosas colheremos, brancas e rubras também.
— e eu me ofertarei a ti. 

27.4.17

mil cantos III

as mandrágoras libertam o seu perfume, e os melhores frutos nascem da árvore de nós. para ti, minha amada, eu guardarei os frutos, os verdes frutos e os frutos já maduros:
— para ti os guardarei, ó amada minha.

26.4.17

mil cantos II

e perguntaram: — mestre, como se cura a doença de amor?
— saciai-lhe a fome com bolos de passas, a sede com laranjas ainda de orvalho perladas. e levai-o, levai-o com presteza, à presença da amada, para que também a alma se replene.

25.4.17

mil cantos I

como a laranjeira entre as árvores de um pomar
assim é a minha amada entre as mulheres
— sento-me ao abrigo da sua sombra
e nos seus beijos repouso a sede minha

20.4.17

novas de achamento

todas as viagens, percebeu, eram de descoberta. o mundo era um mar que se renovava a cada dia. dessas viagens escreveria novas de achamento. afinal, era a ela que dedicava cada padrão de descobrimento.

19.4.17

da impossibilidade do conhecimento

dela, sabia duas coisas: que moldava o tempo e alterava as estações. fazia-o sem gestos nem palavras: apenas com a presença. e ele nunca entendeu como.

18.4.17

curso completo de pesos e medidas

ela faltava e tudo o mais sobrava.

6.3.17

como quem enfia um colar de pérolas de água

descobriu que tudo o que tinha juntado, os livros, as músicas, as viagens, os mares, os faróis, as enseadas, as orquídeas, tinha um fio, afinal: aprendê-la.

2.3.17

a invisível melodia

no meio do jardim sentiu um aroma a orquídeas. era ela.

23.2.17

arrumador imprevisto

guardava as palavras dela arrumadas por aromas: amêndoas, mar ao entardecer, orquídeas, sândalo...

18.2.17

uma vereda salpicada de dourado

viu os passos dela ali, inspirou a luz perfumada de azul e sentiu a íntima alegria de um recém ressuscitado.

11.2.17

ao sábado à noite

era ao sábado à noite que lhe sentia mais funda a ausência. e no relógio dos seus dias, todas as noites eram de sábado.

9.2.17

uma espiral desenhada a palavras

colecionava as palavras que lhe queria dizer. não dizia: nunca eram suficientes para tudo o que lhe queria dizer.

1.2.17

enlaces e remates

um dia, fiaram as respetivas almas, entrelaçaram-nas e esqueceram o ponto onde ficou o remate. oh, tinham que ficar ligados para sempre, assim.

28.1.17

porto de abrigo

um dia encontrou uma enseada onde a água era tão límpida que se podia ver o pulsar das veias finíssimas da areia. ancorou. estaria ali para a abrigar, quando ela chegasse. e aguardou.

24.1.17

a voz associada às palavras, enquanto são escritas

foi quando, enquanto eram desenhadas na folha em branco, todas as palavras passaram a soar à voz dela, que não lhe restaram interrogações. nem uma.

23.1.17

palavras em forma de mancha de aguarela

para ele as palavras espalharam-se no papel como se fossem diluídas por água e absorvidas pela superfície branca até que se lhe tornou impossível distinguir entre as orlas de ternura saudade amor.

22.1.17

o tempo, essa grande escultura de areia

deixou de contar os dias. afinal, descobriu, sem ela nenhuma das formas de medir o tempo era aplicável.